MINHA JOVEM AMIGUINHA:
Embora você não acredite mesmo, nós os mais velhos, sabemos um pouco do seu drama. Lembre-se de que para compensar as desvantagens de já sermos "coroas", existe a favorável circunstância de já termos tido a sua idade, enquanto que você não pode dizer o mesmo. Na verdade, em termos de vida, a inveja é nossa.
E não creia na total validade do argumento de que as coisas mudaram demais desde os tempos de nossa adolescência. É certo que houve mudanças e que mudanças! - mas há algumas coisas imutáveis nas criaturas humanas: a sua própria natureza, o seu íntimo, o âmago da alma humana, por exemplo. E assim, por mais distantes que estejamos no tempo e no espaço, há sempre os pontos comuns que nos tornam contemporâneos do patriarca Abraão, de Luiz Vaz de Camões e do futuro filho de seu filho, bem depois ao ano 2000. Procedemos de um mesmo casal. E essa origem comum em que pese a enorme distância no tempo que nos seprara dos primeiros pais, fixa características inalienáveis na espécie animal a que pertencemos.
Daí porque, sem que haja nenhum intuito demagógico ou professoral da nossa parte, podemos assegurar-lhe que o seu drama não é nenhum ato inaugural. É antes a repetição, incansável aliás, do que aconteceu com sua mãe, sua avó, sua bisavó, seguindo sempre para trás através de um milhão e duzentos mil antepassados, que é o número convencionado pelos cientistas para estabelecer a linhagem ascendente de cada um de nós.
Acumulando, voluntária ou involuntariamente, experiências, sempre ao preço de algum sofrimento físico ou moral, os mais velhos conquistaram o direito de dizer alguma coisa aos mais novos, o que nem sempre é agradável para ambas as partes, mas é imperativo a uns e necessário a outros.
A dificuldade contudo não reside aqui. Em condições normais as mocinhas estão prontas a aceitar o que lhes dizem as mais vividos. Mas quase sempre as condições padecem de normalidade e o resultado é uma radicalização de opiniões, cada vez mais exacerbadas, anulando-se a única via de acesso a um bom entendimento, o diálogo.
Diz o moço que ao mais velho cabe toda a culpa pelo rompimento, pois impaciente, intolerante e intransigente, vai além nos seus extremos, apelando para a autoridade e até para a violência. Panoramicamente, há bastante de verdade nisso e não falta por aí gente velha assim.
Mas o que o moço não diz é que na maioria das vezes em que a conversa iniciada em bom-tom degenera, quem tomou a iniciativa foi ele mesmo, espicaçando a outra parte em ditos grosseiros e chocarrices, usando irreverências em coisas sérias, faltando com o respeito que não é favor devido a ninguém. Ora, o mais velho já tem dificuldades em aceitar que dele discorde o mais moço. Que dizer então de sua atitude quando a isto se soma a afronta pessoal? É lamentável que o diálogo se desfaça mas é natural a reação do pai, da mãe ou de quem lhes faz a vez, frente ao desaforo do menor que lhes está sujeito.
E aos poucos se vai estabalecendo um "status" psíquico-emocional em ambas as partes que conduz fatalmente a uma permanente agressividade mútua e que se exterioriza em gestos ou palavras tão logo as partes se aproximem.
Você admite que está assim e pergunta como a coisa vai terminar, e o que fazer.
À primeira pergunta não darei resposta. Pode ser tão desoladora que você ou não acreditará nela, ou perderá o sono pensando no futuro.
Prefiro considerar a segunda, para a qual só tenho uma resposta: desarme-se. Isto mesmo, desarme-se. Parta do princípio de que os que lhes estão próximos pelo vínculo sagrado do sangue não lhe querem mal, muito antes pelo contrário. Não tome por implicância ou falta de confiança o zelo que eles têm por você. Você é o patrimônio mais valioso que Deus lhes deu, e qualquer perigo real ou imaginário que você corra os deixa em polvorosa. Não os trate agressivamente e nem os ridicularize. Faço-lhe uma proposta: leia em voz alta esta carta para eles ouvirem. E proponha-lhes um acordo de vida nova dentro do espírito desta mensagem que lhe mando através do jornal na esperança de alcançar outros. E aplique a sua amabilidade tão gabada pelos estranhos e tão ignorada pelo seu pessoal - no trato doméstico. Faça uma auto-crítica sincera e responda: há quanto tempo você não tem a iniciativa de uma palavra ou de um gesto de carinho para com eles? Eles também são humanos e gostam disso. Gostam mais do que de presentes caros em datas especiais.
Desarme-se, jovem amiga, e não se assombre com o milagre que virá. Eles deixarão extravasar um tal contentamento que você é capaz de pensar que endoidaram.
E a sua casa em vez de ser o seu restaurante e o seu ponto de estacionamento noturno, voltará a ter o encantamento dos seus anos infantis, quando era difícil arrancá-la de lá, a não ser acompanhada daqueles cuja companhia hoje não lhes traz qualquer agrado. Você verá que eles não mudaram, e conservam intacto e mais rico o mesmo potencial de afeição e de carinho que tornava eterna insignificância todo e qualquer sacrifício já feito ou a fazer por você. Experimente. Mas comece hoje. Não deixe para amanhã. Amanhã a sua tarefa já deve ser outra: levar a mensagem positiva de sua experiência aos seus colegas e amigos parados diante da encruzilhada desafiadora que ainda há pouco atormentava você. Por que deixá-los mais tempo sem lenço e sem documento?
Embora você não acredite mesmo, nós os mais velhos, sabemos um pouco do seu drama. Lembre-se de que para compensar as desvantagens de já sermos "coroas", existe a favorável circunstância de já termos tido a sua idade, enquanto que você não pode dizer o mesmo. Na verdade, em termos de vida, a inveja é nossa.
E não creia na total validade do argumento de que as coisas mudaram demais desde os tempos de nossa adolescência. É certo que houve mudanças e que mudanças! - mas há algumas coisas imutáveis nas criaturas humanas: a sua própria natureza, o seu íntimo, o âmago da alma humana, por exemplo. E assim, por mais distantes que estejamos no tempo e no espaço, há sempre os pontos comuns que nos tornam contemporâneos do patriarca Abraão, de Luiz Vaz de Camões e do futuro filho de seu filho, bem depois ao ano 2000. Procedemos de um mesmo casal. E essa origem comum em que pese a enorme distância no tempo que nos seprara dos primeiros pais, fixa características inalienáveis na espécie animal a que pertencemos.
Daí porque, sem que haja nenhum intuito demagógico ou professoral da nossa parte, podemos assegurar-lhe que o seu drama não é nenhum ato inaugural. É antes a repetição, incansável aliás, do que aconteceu com sua mãe, sua avó, sua bisavó, seguindo sempre para trás através de um milhão e duzentos mil antepassados, que é o número convencionado pelos cientistas para estabelecer a linhagem ascendente de cada um de nós.
Acumulando, voluntária ou involuntariamente, experiências, sempre ao preço de algum sofrimento físico ou moral, os mais velhos conquistaram o direito de dizer alguma coisa aos mais novos, o que nem sempre é agradável para ambas as partes, mas é imperativo a uns e necessário a outros.
A dificuldade contudo não reside aqui. Em condições normais as mocinhas estão prontas a aceitar o que lhes dizem as mais vividos. Mas quase sempre as condições padecem de normalidade e o resultado é uma radicalização de opiniões, cada vez mais exacerbadas, anulando-se a única via de acesso a um bom entendimento, o diálogo.
Diz o moço que ao mais velho cabe toda a culpa pelo rompimento, pois impaciente, intolerante e intransigente, vai além nos seus extremos, apelando para a autoridade e até para a violência. Panoramicamente, há bastante de verdade nisso e não falta por aí gente velha assim.
Mas o que o moço não diz é que na maioria das vezes em que a conversa iniciada em bom-tom degenera, quem tomou a iniciativa foi ele mesmo, espicaçando a outra parte em ditos grosseiros e chocarrices, usando irreverências em coisas sérias, faltando com o respeito que não é favor devido a ninguém. Ora, o mais velho já tem dificuldades em aceitar que dele discorde o mais moço. Que dizer então de sua atitude quando a isto se soma a afronta pessoal? É lamentável que o diálogo se desfaça mas é natural a reação do pai, da mãe ou de quem lhes faz a vez, frente ao desaforo do menor que lhes está sujeito.
E aos poucos se vai estabalecendo um "status" psíquico-emocional em ambas as partes que conduz fatalmente a uma permanente agressividade mútua e que se exterioriza em gestos ou palavras tão logo as partes se aproximem.
Você admite que está assim e pergunta como a coisa vai terminar, e o que fazer.
À primeira pergunta não darei resposta. Pode ser tão desoladora que você ou não acreditará nela, ou perderá o sono pensando no futuro.
Prefiro considerar a segunda, para a qual só tenho uma resposta: desarme-se. Isto mesmo, desarme-se. Parta do princípio de que os que lhes estão próximos pelo vínculo sagrado do sangue não lhe querem mal, muito antes pelo contrário. Não tome por implicância ou falta de confiança o zelo que eles têm por você. Você é o patrimônio mais valioso que Deus lhes deu, e qualquer perigo real ou imaginário que você corra os deixa em polvorosa. Não os trate agressivamente e nem os ridicularize. Faço-lhe uma proposta: leia em voz alta esta carta para eles ouvirem. E proponha-lhes um acordo de vida nova dentro do espírito desta mensagem que lhe mando através do jornal na esperança de alcançar outros. E aplique a sua amabilidade tão gabada pelos estranhos e tão ignorada pelo seu pessoal - no trato doméstico. Faça uma auto-crítica sincera e responda: há quanto tempo você não tem a iniciativa de uma palavra ou de um gesto de carinho para com eles? Eles também são humanos e gostam disso. Gostam mais do que de presentes caros em datas especiais.
Desarme-se, jovem amiga, e não se assombre com o milagre que virá. Eles deixarão extravasar um tal contentamento que você é capaz de pensar que endoidaram.
E a sua casa em vez de ser o seu restaurante e o seu ponto de estacionamento noturno, voltará a ter o encantamento dos seus anos infantis, quando era difícil arrancá-la de lá, a não ser acompanhada daqueles cuja companhia hoje não lhes traz qualquer agrado. Você verá que eles não mudaram, e conservam intacto e mais rico o mesmo potencial de afeição e de carinho que tornava eterna insignificância todo e qualquer sacrifício já feito ou a fazer por você. Experimente. Mas comece hoje. Não deixe para amanhã. Amanhã a sua tarefa já deve ser outra: levar a mensagem positiva de sua experiência aos seus colegas e amigos parados diante da encruzilhada desafiadora que ainda há pouco atormentava você. Por que deixá-los mais tempo sem lenço e sem documento?
Crônia escrita em 1971 e publicada no livro Cinzeiros e jequitibás, de 1985.
