terça-feira, 17 de agosto de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Sem lenço e sem documento
MINHA JOVEM AMIGUINHA:
Embora você não acredite mesmo, nós os mais velhos, sabemos um pouco do seu drama. Lembre-se de que para compensar as desvantagens de já sermos "coroas", existe a favorável circunstância de já termos tido a sua idade, enquanto que você não pode dizer o mesmo. Na verdade, em termos de vida, a inveja é nossa.
E não creia na total validade do argumento de que as coisas mudaram demais desde os tempos de nossa adolescência. É certo que houve mudanças e que mudanças! - mas há algumas coisas imutáveis nas criaturas humanas: a sua própria natureza, o seu íntimo, o âmago da alma humana, por exemplo. E assim, por mais distantes que estejamos no tempo e no espaço, há sempre os pontos comuns que nos tornam contemporâneos do patriarca Abraão, de Luiz Vaz de Camões e do futuro filho de seu filho, bem depois ao ano 2000. Procedemos de um mesmo casal. E essa origem comum em que pese a enorme distância no tempo que nos seprara dos primeiros pais, fixa características inalienáveis na espécie animal a que pertencemos.
Daí porque, sem que haja nenhum intuito demagógico ou professoral da nossa parte, podemos assegurar-lhe que o seu drama não é nenhum ato inaugural. É antes a repetição, incansável aliás, do que aconteceu com sua mãe, sua avó, sua bisavó, seguindo sempre para trás através de um milhão e duzentos mil antepassados, que é o número convencionado pelos cientistas para estabelecer a linhagem ascendente de cada um de nós.
Acumulando, voluntária ou involuntariamente, experiências, sempre ao preço de algum sofrimento físico ou moral, os mais velhos conquistaram o direito de dizer alguma coisa aos mais novos, o que nem sempre é agradável para ambas as partes, mas é imperativo a uns e necessário a outros.
A dificuldade contudo não reside aqui. Em condições normais as mocinhas estão prontas a aceitar o que lhes dizem as mais vividos. Mas quase sempre as condições padecem de normalidade e o resultado é uma radicalização de opiniões, cada vez mais exacerbadas, anulando-se a única via de acesso a um bom entendimento, o diálogo.
Diz o moço que ao mais velho cabe toda a culpa pelo rompimento, pois impaciente, intolerante e intransigente, vai além nos seus extremos, apelando para a autoridade e até para a violência. Panoramicamente, há bastante de verdade nisso e não falta por aí gente velha assim.
Mas o que o moço não diz é que na maioria das vezes em que a conversa iniciada em bom-tom degenera, quem tomou a iniciativa foi ele mesmo, espicaçando a outra parte em ditos grosseiros e chocarrices, usando irreverências em coisas sérias, faltando com o respeito que não é favor devido a ninguém. Ora, o mais velho já tem dificuldades em aceitar que dele discorde o mais moço. Que dizer então de sua atitude quando a isto se soma a afronta pessoal? É lamentável que o diálogo se desfaça mas é natural a reação do pai, da mãe ou de quem lhes faz a vez, frente ao desaforo do menor que lhes está sujeito.
E aos poucos se vai estabalecendo um "status" psíquico-emocional em ambas as partes que conduz fatalmente a uma permanente agressividade mútua e que se exterioriza em gestos ou palavras tão logo as partes se aproximem.
Você admite que está assim e pergunta como a coisa vai terminar, e o que fazer.
À primeira pergunta não darei resposta. Pode ser tão desoladora que você ou não acreditará nela, ou perderá o sono pensando no futuro.
Prefiro considerar a segunda, para a qual só tenho uma resposta: desarme-se. Isto mesmo, desarme-se. Parta do princípio de que os que lhes estão próximos pelo vínculo sagrado do sangue não lhe querem mal, muito antes pelo contrário. Não tome por implicância ou falta de confiança o zelo que eles têm por você. Você é o patrimônio mais valioso que Deus lhes deu, e qualquer perigo real ou imaginário que você corra os deixa em polvorosa. Não os trate agressivamente e nem os ridicularize. Faço-lhe uma proposta: leia em voz alta esta carta para eles ouvirem. E proponha-lhes um acordo de vida nova dentro do espírito desta mensagem que lhe mando através do jornal na esperança de alcançar outros. E aplique a sua amabilidade tão gabada pelos estranhos e tão ignorada pelo seu pessoal - no trato doméstico. Faça uma auto-crítica sincera e responda: há quanto tempo você não tem a iniciativa de uma palavra ou de um gesto de carinho para com eles? Eles também são humanos e gostam disso. Gostam mais do que de presentes caros em datas especiais.
Desarme-se, jovem amiga, e não se assombre com o milagre que virá. Eles deixarão extravasar um tal contentamento que você é capaz de pensar que endoidaram.
E a sua casa em vez de ser o seu restaurante e o seu ponto de estacionamento noturno, voltará a ter o encantamento dos seus anos infantis, quando era difícil arrancá-la de lá, a não ser acompanhada daqueles cuja companhia hoje não lhes traz qualquer agrado. Você verá que eles não mudaram, e conservam intacto e mais rico o mesmo potencial de afeição e de carinho que tornava eterna insignificância todo e qualquer sacrifício já feito ou a fazer por você. Experimente. Mas comece hoje. Não deixe para amanhã. Amanhã a sua tarefa já deve ser outra: levar a mensagem positiva de sua experiência aos seus colegas e amigos parados diante da encruzilhada desafiadora que ainda há pouco atormentava você. Por que deixá-los mais tempo sem lenço e sem documento?
Embora você não acredite mesmo, nós os mais velhos, sabemos um pouco do seu drama. Lembre-se de que para compensar as desvantagens de já sermos "coroas", existe a favorável circunstância de já termos tido a sua idade, enquanto que você não pode dizer o mesmo. Na verdade, em termos de vida, a inveja é nossa.
E não creia na total validade do argumento de que as coisas mudaram demais desde os tempos de nossa adolescência. É certo que houve mudanças e que mudanças! - mas há algumas coisas imutáveis nas criaturas humanas: a sua própria natureza, o seu íntimo, o âmago da alma humana, por exemplo. E assim, por mais distantes que estejamos no tempo e no espaço, há sempre os pontos comuns que nos tornam contemporâneos do patriarca Abraão, de Luiz Vaz de Camões e do futuro filho de seu filho, bem depois ao ano 2000. Procedemos de um mesmo casal. E essa origem comum em que pese a enorme distância no tempo que nos seprara dos primeiros pais, fixa características inalienáveis na espécie animal a que pertencemos.
Daí porque, sem que haja nenhum intuito demagógico ou professoral da nossa parte, podemos assegurar-lhe que o seu drama não é nenhum ato inaugural. É antes a repetição, incansável aliás, do que aconteceu com sua mãe, sua avó, sua bisavó, seguindo sempre para trás através de um milhão e duzentos mil antepassados, que é o número convencionado pelos cientistas para estabelecer a linhagem ascendente de cada um de nós.
Acumulando, voluntária ou involuntariamente, experiências, sempre ao preço de algum sofrimento físico ou moral, os mais velhos conquistaram o direito de dizer alguma coisa aos mais novos, o que nem sempre é agradável para ambas as partes, mas é imperativo a uns e necessário a outros.
A dificuldade contudo não reside aqui. Em condições normais as mocinhas estão prontas a aceitar o que lhes dizem as mais vividos. Mas quase sempre as condições padecem de normalidade e o resultado é uma radicalização de opiniões, cada vez mais exacerbadas, anulando-se a única via de acesso a um bom entendimento, o diálogo.
Diz o moço que ao mais velho cabe toda a culpa pelo rompimento, pois impaciente, intolerante e intransigente, vai além nos seus extremos, apelando para a autoridade e até para a violência. Panoramicamente, há bastante de verdade nisso e não falta por aí gente velha assim.
Mas o que o moço não diz é que na maioria das vezes em que a conversa iniciada em bom-tom degenera, quem tomou a iniciativa foi ele mesmo, espicaçando a outra parte em ditos grosseiros e chocarrices, usando irreverências em coisas sérias, faltando com o respeito que não é favor devido a ninguém. Ora, o mais velho já tem dificuldades em aceitar que dele discorde o mais moço. Que dizer então de sua atitude quando a isto se soma a afronta pessoal? É lamentável que o diálogo se desfaça mas é natural a reação do pai, da mãe ou de quem lhes faz a vez, frente ao desaforo do menor que lhes está sujeito.
E aos poucos se vai estabalecendo um "status" psíquico-emocional em ambas as partes que conduz fatalmente a uma permanente agressividade mútua e que se exterioriza em gestos ou palavras tão logo as partes se aproximem.
Você admite que está assim e pergunta como a coisa vai terminar, e o que fazer.
À primeira pergunta não darei resposta. Pode ser tão desoladora que você ou não acreditará nela, ou perderá o sono pensando no futuro.
Prefiro considerar a segunda, para a qual só tenho uma resposta: desarme-se. Isto mesmo, desarme-se. Parta do princípio de que os que lhes estão próximos pelo vínculo sagrado do sangue não lhe querem mal, muito antes pelo contrário. Não tome por implicância ou falta de confiança o zelo que eles têm por você. Você é o patrimônio mais valioso que Deus lhes deu, e qualquer perigo real ou imaginário que você corra os deixa em polvorosa. Não os trate agressivamente e nem os ridicularize. Faço-lhe uma proposta: leia em voz alta esta carta para eles ouvirem. E proponha-lhes um acordo de vida nova dentro do espírito desta mensagem que lhe mando através do jornal na esperança de alcançar outros. E aplique a sua amabilidade tão gabada pelos estranhos e tão ignorada pelo seu pessoal - no trato doméstico. Faça uma auto-crítica sincera e responda: há quanto tempo você não tem a iniciativa de uma palavra ou de um gesto de carinho para com eles? Eles também são humanos e gostam disso. Gostam mais do que de presentes caros em datas especiais.
Desarme-se, jovem amiga, e não se assombre com o milagre que virá. Eles deixarão extravasar um tal contentamento que você é capaz de pensar que endoidaram.
E a sua casa em vez de ser o seu restaurante e o seu ponto de estacionamento noturno, voltará a ter o encantamento dos seus anos infantis, quando era difícil arrancá-la de lá, a não ser acompanhada daqueles cuja companhia hoje não lhes traz qualquer agrado. Você verá que eles não mudaram, e conservam intacto e mais rico o mesmo potencial de afeição e de carinho que tornava eterna insignificância todo e qualquer sacrifício já feito ou a fazer por você. Experimente. Mas comece hoje. Não deixe para amanhã. Amanhã a sua tarefa já deve ser outra: levar a mensagem positiva de sua experiência aos seus colegas e amigos parados diante da encruzilhada desafiadora que ainda há pouco atormentava você. Por que deixá-los mais tempo sem lenço e sem documento?
Crônia escrita em 1971 e publicada no livro Cinzeiros e jequitibás, de 1985.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
O doce mais doce
MINHA SENHORA:
Neste preciso instante em que escrevo estas duas palavras iniciais, vem-me à lembrança a estória - não sei se verídica ou não - do homem que sonhou com o Céu. Foi o caso que ele se deitou à hora de sempre, com as preocupações de sempre, amaldiçoando a sua sorte, invejoso da boa vida alheia, queixoso até à medula e... de repente ei-lo em um vasto salão no Céu. Enconstadas à paredes, centenas, milhares de cruzes de todos os tamanhos e feitios: grossas, finas, baixas, altas, de madeira, de pedra, de ferro, e até de prata e de ouro. O anjo que o recebera explicou-lhe: - "O sr. com certeza sabe que todas as criaturas sem exceção, tem uma cruz para levar. Ninguém está dispensado, ninguém. No seu caso, estamos dispostos a fazer-lhe uma concessão: o sr. mesmo escolhe aquela que mais lhe agrade". E com um gesto largo dos braços mostrou-lhe as cruzes à sua escolha. Ficou contente o nosso homem, e dispondo de tempo, passou à seleção.
Achou a primeira muito pesada; a segunda incômoda, a terceira sem proporção; a quarta, a quinta, a sexta... nenhuma servia. Olhava, pegava, suspendia, punha num ombro, simulava uma caminhada e desistia. E assim foi salão à fora: experimentando e largando. As bonitas eram pesadas e desconfortáveis; as mais maneiras eram muito feias. As roliças escorregavam, as de quinas incomodavam. De repente aconteceu: ele se agradou total de uma delas. Achou-a jeitosa, pesando pouco, bem dividida, altura certa, um amor de cruz. Chamou o anjo e anunciou-lhe a decisão: encontrara a cruz ideal. O anjo então pediu: - "Considerando que todas as cruzes trazem gravada na base o nome do seu portador, gostaria que o sr. me informasse de quem é esta". Depois de rápida procura o olhar do nosso homem caiu sobre a inscrição antes despercebida. Leu-a. E foi vexado e desenxabido que olhou novamente o anjo: O nome que estava lá, com todas as letras bem nítidas, era o seu. Nunca lhe passara pela cabeça a ideia de que os vizinhos, os amigos e os parentes teriam cruzes piores do que a sua para carregar.
Não pretendo de modo algum subestimar a cruz que a sra. carrega, assim como não vejo porque lhe dar o direito de superestimar o seu esforço em carregá-la. Gostaria, isto sim, que nós ambos considerássemos por alguns momentos, objetivamente e com sinceridade o seu problema.
A sra. queixa dos trabalhos de casa, dos filhos que não lhe dão um instante de sossego, da mínima ou da nenhuma atenção do marido. Sua vida diária é semelhante aquela que, como condenação eterna, foi dada a Sísifo, personagem da mitologia grega: empurrar morro acima uma pedra enorme, só para vê-la rolar até o ponto de partida assim que o cume do monte era alcançado. Não é isto? E tem mais, há o problema da filha mais velha, com quem a sra. positivamente não consegue entender-se. E o fato de os de fora da casa acharem que ela é uma excelente criatura só serve para exasperar ainda mais a senhora. E como a sra. está sempre com a razão, pois é mais velha, tem experiência e responsabilidade, os de fora são cegos, ou se fazem de maus ou a filha é uma dissimulada. Não é assim?
Bem aventurados os pais, especialmente as mães cujos filhos são peraltas, irrequietos, travessos, que sobem nas árvores, brincam na terra, sujam-se todos, promovem as suas briguinhas, choram porque querem ir a algum lugar a choram porque foram. Bem aventuradas as mães cujos filhos mancham o assoalho encerado com os pés sujos de barro, que põem os pés no assento da cadeira, que mexem no guarda-comida no intervalo das refeições, que demoram demais no banho, que de vez em quando quebram um copo ou um prato, que soltam seu palavrãozinho um vez por outra. Bem aventurada a mãe cuja filha adolescente se desentende com ela por causa do vestido, de comida, de namoro, de amizades etc. etc. Esta mãe é uma abençoada: os seus filhos são normais e estão sendo criados de maneira normal.
Pior, infinitamente pior seria se esses meninos fossem apáticos, inertes, simples bonecos de engonço, sem vontade, sem energia, sem interesse de ver de perto e examinar esta coisa marvilhosa que é a vida e para a qual estão justamente agora sintonizando com entusiasmo os seus sentidos.
Existe um permanente estado de beligerância entre a sra. e a sua filha mais velha? E daí? Quantos anos separam os seus 15 anos dos 15 que ela tem agora? Vamos supor que os seus quinze foram comemorados em 1954. Naquele ano se alguém dissesse que a Copa do Mundo de 1970 no México seria vista ao vivo aqui em Paraguaçu, ou que o homem iria passear na Lua sob nossos olhos assonbrados, esse alguém provocaria riso ou dó: era piadista ou doido. E a sra. há de querer que uma pessoa de 15 anos hoje possa afinar totalmente com outra que deixou os seus 15 presos em um marco distante 17 anos para trás? Se isto suceder, das duas uma: ou há aqui um caso de velhice precoce, o que será de se lamentar profundamente, ou então a mais velha foi tomada de uma juvenilidde imprópria e por isso ridícula.
O que importa, minha senhora, não é afligir-se por causa da trombada, e sim ter o cuidado de não permitir que danos irreparáveis venham a acontecer na personalidade em formação em consequência dos choques. E isto é tarefa sua, inadiável e intransferível. Brigue menos com sua filha e demonstre a toda hora o quanto a sra. a ama. É bom que ela saiba que aquele doce de mamão que a família está comendo foi feito porque ela, a filha mais velha, gosta de doce de mamão.
E quanto ao marido, ele lhe é infiel? Não. É jogador? Não. É um bêbado? Não. Esforça-se por lhe dar o melhor? Sim. Trata-a e aos filhos com carinho e respeito? Sim. Que a sra. quer mais?
Devo informá-la de que o Prícipe de Gales mais velho já está casado, o mais jovem ainda está muito moço, e um príncipe igual a esse seu, quem o tem cuida bem ele: dê-lhe paz e alegria em casa para que ele reanimado e fortalecido possa começar cada manhã como se estivesse ainda em lua de mel.
Neste preciso instante em que escrevo estas duas palavras iniciais, vem-me à lembrança a estória - não sei se verídica ou não - do homem que sonhou com o Céu. Foi o caso que ele se deitou à hora de sempre, com as preocupações de sempre, amaldiçoando a sua sorte, invejoso da boa vida alheia, queixoso até à medula e... de repente ei-lo em um vasto salão no Céu. Enconstadas à paredes, centenas, milhares de cruzes de todos os tamanhos e feitios: grossas, finas, baixas, altas, de madeira, de pedra, de ferro, e até de prata e de ouro. O anjo que o recebera explicou-lhe: - "O sr. com certeza sabe que todas as criaturas sem exceção, tem uma cruz para levar. Ninguém está dispensado, ninguém. No seu caso, estamos dispostos a fazer-lhe uma concessão: o sr. mesmo escolhe aquela que mais lhe agrade". E com um gesto largo dos braços mostrou-lhe as cruzes à sua escolha. Ficou contente o nosso homem, e dispondo de tempo, passou à seleção.
Achou a primeira muito pesada; a segunda incômoda, a terceira sem proporção; a quarta, a quinta, a sexta... nenhuma servia. Olhava, pegava, suspendia, punha num ombro, simulava uma caminhada e desistia. E assim foi salão à fora: experimentando e largando. As bonitas eram pesadas e desconfortáveis; as mais maneiras eram muito feias. As roliças escorregavam, as de quinas incomodavam. De repente aconteceu: ele se agradou total de uma delas. Achou-a jeitosa, pesando pouco, bem dividida, altura certa, um amor de cruz. Chamou o anjo e anunciou-lhe a decisão: encontrara a cruz ideal. O anjo então pediu: - "Considerando que todas as cruzes trazem gravada na base o nome do seu portador, gostaria que o sr. me informasse de quem é esta". Depois de rápida procura o olhar do nosso homem caiu sobre a inscrição antes despercebida. Leu-a. E foi vexado e desenxabido que olhou novamente o anjo: O nome que estava lá, com todas as letras bem nítidas, era o seu. Nunca lhe passara pela cabeça a ideia de que os vizinhos, os amigos e os parentes teriam cruzes piores do que a sua para carregar.
Não pretendo de modo algum subestimar a cruz que a sra. carrega, assim como não vejo porque lhe dar o direito de superestimar o seu esforço em carregá-la. Gostaria, isto sim, que nós ambos considerássemos por alguns momentos, objetivamente e com sinceridade o seu problema.
A sra. queixa dos trabalhos de casa, dos filhos que não lhe dão um instante de sossego, da mínima ou da nenhuma atenção do marido. Sua vida diária é semelhante aquela que, como condenação eterna, foi dada a Sísifo, personagem da mitologia grega: empurrar morro acima uma pedra enorme, só para vê-la rolar até o ponto de partida assim que o cume do monte era alcançado. Não é isto? E tem mais, há o problema da filha mais velha, com quem a sra. positivamente não consegue entender-se. E o fato de os de fora da casa acharem que ela é uma excelente criatura só serve para exasperar ainda mais a senhora. E como a sra. está sempre com a razão, pois é mais velha, tem experiência e responsabilidade, os de fora são cegos, ou se fazem de maus ou a filha é uma dissimulada. Não é assim?
Bem aventurados os pais, especialmente as mães cujos filhos são peraltas, irrequietos, travessos, que sobem nas árvores, brincam na terra, sujam-se todos, promovem as suas briguinhas, choram porque querem ir a algum lugar a choram porque foram. Bem aventuradas as mães cujos filhos mancham o assoalho encerado com os pés sujos de barro, que põem os pés no assento da cadeira, que mexem no guarda-comida no intervalo das refeições, que demoram demais no banho, que de vez em quando quebram um copo ou um prato, que soltam seu palavrãozinho um vez por outra. Bem aventurada a mãe cuja filha adolescente se desentende com ela por causa do vestido, de comida, de namoro, de amizades etc. etc. Esta mãe é uma abençoada: os seus filhos são normais e estão sendo criados de maneira normal.
Pior, infinitamente pior seria se esses meninos fossem apáticos, inertes, simples bonecos de engonço, sem vontade, sem energia, sem interesse de ver de perto e examinar esta coisa marvilhosa que é a vida e para a qual estão justamente agora sintonizando com entusiasmo os seus sentidos.
Existe um permanente estado de beligerância entre a sra. e a sua filha mais velha? E daí? Quantos anos separam os seus 15 anos dos 15 que ela tem agora? Vamos supor que os seus quinze foram comemorados em 1954. Naquele ano se alguém dissesse que a Copa do Mundo de 1970 no México seria vista ao vivo aqui em Paraguaçu, ou que o homem iria passear na Lua sob nossos olhos assonbrados, esse alguém provocaria riso ou dó: era piadista ou doido. E a sra. há de querer que uma pessoa de 15 anos hoje possa afinar totalmente com outra que deixou os seus 15 presos em um marco distante 17 anos para trás? Se isto suceder, das duas uma: ou há aqui um caso de velhice precoce, o que será de se lamentar profundamente, ou então a mais velha foi tomada de uma juvenilidde imprópria e por isso ridícula.
O que importa, minha senhora, não é afligir-se por causa da trombada, e sim ter o cuidado de não permitir que danos irreparáveis venham a acontecer na personalidade em formação em consequência dos choques. E isto é tarefa sua, inadiável e intransferível. Brigue menos com sua filha e demonstre a toda hora o quanto a sra. a ama. É bom que ela saiba que aquele doce de mamão que a família está comendo foi feito porque ela, a filha mais velha, gosta de doce de mamão.
E quanto ao marido, ele lhe é infiel? Não. É jogador? Não. É um bêbado? Não. Esforça-se por lhe dar o melhor? Sim. Trata-a e aos filhos com carinho e respeito? Sim. Que a sra. quer mais?
Devo informá-la de que o Prícipe de Gales mais velho já está casado, o mais jovem ainda está muito moço, e um príncipe igual a esse seu, quem o tem cuida bem ele: dê-lhe paz e alegria em casa para que ele reanimado e fortalecido possa começar cada manhã como se estivesse ainda em lua de mel.
Crônica escrita em 1971 e publicada no livro Cinzeiros e Jequitibás, de 1985
terça-feira, 13 de abril de 2010
Assunto sério
Sorri ontem ao ler uma breve notícia publicada na seção "Assim é..." do "Diário de São Paulo". O sorisso no caso é importante, pois a notícia proíbe justamente sorrir, não ao leitor, mas a certos funcionários municipais de Los Angeles.
O prefeito dessa importante cidade da Califórnia baixou uma portaria recomendando aos funcionários que trabalham na repartição municipal encarregada de receber o pagamento de impostos atrasado e portanto com multa, que se abstenham de sorrir no momento em que o contribuinte ali comparece para efetuar o dito pagamento.
Eis aí uma providência de fina sabedoria e que bem demonstra estar a Prefeitura de Los Angeles entregue a um grande conhecedor da psicologia humana. Sei que não estarão de acordo comigo os diligentes e joviais recebedores de impostos daquela cidade, já que agora terão aqueles publicanos de trabalhar como se aquilo fosse uma agência funerária. Mas o público pagante, a grande massa que, com o seu dinheirinho, põe em funcionamento e mantém lubrificada e abastecida a máquina administrativa municipal, este não deixará de louvar e até agradecer a inusitada portaria do Executivo. Sim, porque se há um momento em que o sujeito se sente como em um enterro, é aquele em que ele, forçado pela lei, vai levar uma parte do fruto do seu trabalho para a fogueira pública. Sua disposição psicológica é a mesma daquelas mulheres fenícias que, segundo os historiadores clássicos, eram obrigadas a levar seus filhinhos queridos para serem queimados nos braços do deus Moloque...
Foi isto o que enxergou o salomônico prefeito de Los Angeles. O sorisso numa hora desta seria um despropósito, uma provocação. O cidadão deveria ser recebido, isto sim, por funcionários de caras patibulares, todos com fitas pretas na lapela, ou como braçadeiras, que se apressariam a estender a sua destra condolências ao pagantes enquanto uma orquestra invisível tocava em surdina uma página das bem mórbidas de Schumann. E assim, diante de tão comovedora prova de solidariedade humana, a vítima perderia, da ira e da revolta íntima com que ali penetrou, o suficiente para sair consolado e achando simpáticos e agradáveis os recebedores municipais e ainda penalizado pela sua sorte infeliz, ocupados em mister tão ingrato. Infeliz porém até agora tem sido o contribuinte que, depois de não encontrar por onde anda ou onde mora alguma coisa que ateste o bom emprego do seu dinheiro, ainda é recebido, no momento de holocausto, com o mais prazenteiro dos sorissos que o funcionário pode exibir, como se aquilo fosse um "pic-nic" ou a bilheteira de um cinema que exibe no momento um "film" de Danny Kay.
Esta história de sorriso fora de hora é muito séria. As mulheres, melhor do que ninguém, sabem disto. A prova está na habilidade com que elas são capazes de despertar raivas profundas nas outras mulheres ou extensos sentimentos de humilhação aos homens, com um simples sorisso, simples porém especialíssimo...
E ainda sobre a tremenda eloquência do sorriso há também aquele história contada pelo recentemente falecido escritor norte-americano Dale Carnegie: Durante a grande guerra, houve um grave tumulto em uma fábrica de aço, tumulto provocado por um operário germanófilo que terminou sendo atirado pelos seus colegas, que torciam pelos aliados, em um rio que passava próximo. Pescado o homem, foi ele levado à presença do diretor da fábrica e este interrogou-o sobre o ocorrido. O acusado contou então a sua história: os seus colegas de serviço começaram a falar sobre a guerra, e, a "una voce", afirmavam categoricamente que os aliados iam ganhá-la, aduzindo argumentos sobre argumentos. "E o senhor - perguntou-lhe o patrão - o que foi que disse, o que é que o sr. respondeu para que eles ficassem tão zangados?" - "Eu não disse nada não, sr. diretor, apenas sorri..."
O prefeito dessa importante cidade da Califórnia baixou uma portaria recomendando aos funcionários que trabalham na repartição municipal encarregada de receber o pagamento de impostos atrasado e portanto com multa, que se abstenham de sorrir no momento em que o contribuinte ali comparece para efetuar o dito pagamento.
Eis aí uma providência de fina sabedoria e que bem demonstra estar a Prefeitura de Los Angeles entregue a um grande conhecedor da psicologia humana. Sei que não estarão de acordo comigo os diligentes e joviais recebedores de impostos daquela cidade, já que agora terão aqueles publicanos de trabalhar como se aquilo fosse uma agência funerária. Mas o público pagante, a grande massa que, com o seu dinheirinho, põe em funcionamento e mantém lubrificada e abastecida a máquina administrativa municipal, este não deixará de louvar e até agradecer a inusitada portaria do Executivo. Sim, porque se há um momento em que o sujeito se sente como em um enterro, é aquele em que ele, forçado pela lei, vai levar uma parte do fruto do seu trabalho para a fogueira pública. Sua disposição psicológica é a mesma daquelas mulheres fenícias que, segundo os historiadores clássicos, eram obrigadas a levar seus filhinhos queridos para serem queimados nos braços do deus Moloque...
Foi isto o que enxergou o salomônico prefeito de Los Angeles. O sorisso numa hora desta seria um despropósito, uma provocação. O cidadão deveria ser recebido, isto sim, por funcionários de caras patibulares, todos com fitas pretas na lapela, ou como braçadeiras, que se apressariam a estender a sua destra condolências ao pagantes enquanto uma orquestra invisível tocava em surdina uma página das bem mórbidas de Schumann. E assim, diante de tão comovedora prova de solidariedade humana, a vítima perderia, da ira e da revolta íntima com que ali penetrou, o suficiente para sair consolado e achando simpáticos e agradáveis os recebedores municipais e ainda penalizado pela sua sorte infeliz, ocupados em mister tão ingrato. Infeliz porém até agora tem sido o contribuinte que, depois de não encontrar por onde anda ou onde mora alguma coisa que ateste o bom emprego do seu dinheiro, ainda é recebido, no momento de holocausto, com o mais prazenteiro dos sorissos que o funcionário pode exibir, como se aquilo fosse um "pic-nic" ou a bilheteira de um cinema que exibe no momento um "film" de Danny Kay.
Esta história de sorriso fora de hora é muito séria. As mulheres, melhor do que ninguém, sabem disto. A prova está na habilidade com que elas são capazes de despertar raivas profundas nas outras mulheres ou extensos sentimentos de humilhação aos homens, com um simples sorisso, simples porém especialíssimo...
E ainda sobre a tremenda eloquência do sorriso há também aquele história contada pelo recentemente falecido escritor norte-americano Dale Carnegie: Durante a grande guerra, houve um grave tumulto em uma fábrica de aço, tumulto provocado por um operário germanófilo que terminou sendo atirado pelos seus colegas, que torciam pelos aliados, em um rio que passava próximo. Pescado o homem, foi ele levado à presença do diretor da fábrica e este interrogou-o sobre o ocorrido. O acusado contou então a sua história: os seus colegas de serviço começaram a falar sobre a guerra, e, a "una voce", afirmavam categoricamente que os aliados iam ganhá-la, aduzindo argumentos sobre argumentos. "E o senhor - perguntou-lhe o patrão - o que foi que disse, o que é que o sr. respondeu para que eles ficassem tão zangados?" - "Eu não disse nada não, sr. diretor, apenas sorri..."
Crônica escrita em 1955 e publicada no livro Cinzeiros e Jequitibás, de 1985
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Quién Sabe
Conheci em 1933 o México de 1865 e desde então não o larguei mais. Tinha eu 12 anos incompletos e me meti num concurso escolar de declamação. Meu pai era doido por Castro Alves e assim, os três filhos que concorreram, foram de Castro Alves. A mim coube "O Século", belíssimo poema onde o poeta faz uma análise do século XIX, e de como as coisas iam mal para os povos e as nações, restando aos corações a esperança e a confiança na geração que chegava. Na trágica relação do poeta, a referência ao México, então sob o domínio de Napoleão III que impusera aos mexicanos, pela força das armas, um príncipe austríaco, Maximiliano I, como Imperador: "Aqui o México ardente - Vasto filho independente da liberdade e do sol - Jaz por terra... e lá soluça Juarez, que se debruça e diz-lhe: "Espere o arrebol". Mais uma vez o poeta era também profeta: estes versos de 1865, anteviam 1867, quando os mexicanos, vitoriosos, restabeleceram a sua independência e afirmaram a sua soberania, não poupando Maximiliano, que foi fuzilado. E assim voltava ao poder a figura carismática daquele homem estranho que trazia no sangue e no semblante a fusão étnica do conquistador e do conquistado, Benito Juarez, o advogado de nome espanhol e de alma asteca.
É ponto pacífico no mundo físico a atração dos contrários e até Roberto Carlos já exaltou, contando, a ideal junção do côncavo com o convexo. Acredito que só assim se explica a mútua afeição de mexicanos e brasileiros, afeição espontânea e natural que brota até no coração de um adolescente quando ouve falar na terra da liberdade e do sol que está sofrendo e que precisa se agarrar à abstrata certeza de que o clarão que avermelha o nascente não é a sua terra em chamas, sim o arrebol que anuncia para breve o nascer do sol.
Nossas diferenças vão desde o geológico até ao temperamental. O solo brasileiro é dos mais velhos do planeta, classificado na Era Primitiva, a dos maciços antigos e bacias sedimentares: não tem vulcão nem terremoto. Já o México faz parte do Terciário e do Quaternário, tem apenas 70 milhões de anos - nós temos mais de um bilhão - e em seu solo ainda nascem vulcões. Pelo menos em nossos dias nasceu um; isto em fevereiro de 1943, no sul do país: a terra tremeu, o solo de repente se fendeu e começou a vomitar fumo, lava e pedras: nascia uma planície, o Paricutin, hoje com 400 metros de altura.
Enquanto o brasileiro consagra o "mais ou menos" como a doutrina do quotidiano e o político mineiro se celebriza com a genial afirmativa: - "O meu partido não é contra nem a favor, muito antes pelo contrário, acima de tudo", o mexicano é um passionário e por isto um imprevisível. Comentando o nascimento do Paricutin num roçado qualquer, Érico Veríssimo sentenciou: - "A alma mexicana pode comparar-se a uma lavoura de milho de aparência tranqüila. Mas cuidado, forasteiro! A qualquer momento a roça pode explodir num vulcão sem aviso prévio. E toda a contida e ardente lava do subsolo brotará com fúria, mudando por completo, em poucos minutos, a paisagem em torno".
Eis o México, atormentado e aflito, não podendo e nem querendo esquecer as suas raízes nativas, insistindo em ser "México", a terra dos méxicas, e não a Nova Espanha como quer Hernan Cortez; México de Montezuma e Guatemozim, de estirpe real, que sucumbem com sua pátria. Guatemozim ou Guatemoc, suporta sem gemido que os espanhóis lhe queimem com ferro em brasa as solas de seus pés e quando percebe que o seu companheiro de tortura fraqueja, adverte: - "Você pensa, por acaso, que eu estou me banhando em rosas?". México incompreendido e sofrido, espoliado pelos Estados Unidos que o desfalcam do Arizona e do Novo México, contando para tanto com a cumplicidade do líder que os mexicanos adoravam, General Antônio Lopes de Santa Ana. México de Porfírio Dias, honesto mas incapaz, que sente o problema de sua terra e o define magistralmente:
"Pobre México, tan lejos de Dios, y tan cerca de Estados Unidos".
México de Pancho Vila e Zapata, ferozes, sanguinários, mas patriotas totais, dilacerando o coração no amor cego à pátria, expresso seguidamente nas matanças e depredações.
Eis México dos meus amores, dos soluços de Augustin Lara, Quasimodo apaixonado por Maria Félix, que mulher! de Alberto Dominguez, decantando sua tristeza ante a "Perfídia" da mulher amada. México de "Dos Almas", "Besame Mucho", "La Barca", "Quando tu me quieras", e tantos boleros que levara a paixão mexicana a todas as partes do mundo. México, terra da liberdade, que aceita sem questionar o perseguido seja quem for e venha de onde vier. México de Guadalajara, cidade querida dos brasileiros: ali em 1970, os mexicanos adotaram oficialmente a seleção brasileira como a sua seleção. E quando a hora do Triunfo chegou, as cidades mexicanas celebraram como se brasileiras fossem, a conquista da Copa do Mundo.
México de meus amores, sofro contigo a tua dor, choro ao teu lado os teus mortos, e vivo contigo a vigília em torno às ruínas à espera dos sobreviventes. Por que foste construir tuas casas, teus arranha-céus, em cima dos lagos astecas que aterraste? Por que não cuidaste dos vulcões e dos terremotos, teus companheiros de todos os dias? Por quê?
E me olhas com teus olhos marejados, a tristeza impregnando todo o teu ser e me respondes docemente, todo envolto naquele fatalismo que permeia a tua história desde a fatídica chegada do homem branco até o momento em que contemplas estarrecido as ruínas de tua cidade: "Quién Sabe"?
Crônica escrita em 1985 e publicada no livro Sem Pesadelos, de 1990.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Arranque-se, mancebo
Batida por tempestade, recolhe-se a um desconhecido porto africano a esquadra de Ulisses, o solerte vencedor dos troianos. Estavam agora arribando à terra dos Lotófagos, gente boa, amável e hospitaleira. Ulisses verifica logo que, apesar do bom tratamento recebido é preciso sair dali o mais depressa possível. Os nativos ofereceram a três dos visitantes um fruto que, comido, produziu-lhes efeitos terrivelmente estranhos: os gregos esqueceram-se imediatamente do que são e de onde são, e adquiriram de pronto um tão grande amor às pessoas e às coisas que o cercam, que não querem mais ir embora. Os três comedores de lótus só à força foram levados para os barcos e ali tiveram que ser amarrados. Ou sairiam logo ou ficariam para sempre. E Ulisses velejou apressado, fugindo da flor que produz o esquecimento.
Baseado neste episódio, o renomado novelista inglês Somerset Maugham produziu um dos seus melhores contos intitulado "O comedor de lódão". É a estória de um funcionário inglês que vai passar umas férias na ilha de Capri, perto de Nápolis e historicamente famosa pelas suas belezas naturais e por ter ali vivido uma vida depravadíssima o imperador Tibério. Diz Axel Munthe em seu "Livro de San Michele" que até hoje, quando acontece algo doloroso ou estranho na ilha, os moradores garantem que aquilo é "obra de Tibério" - "coisa" do libidinoso imperador. O inglês, já cinquentão, ficou fascinado, embasbacado, fanático pela ilha. Tratou de estudar um meio de ficar morando em Capri. Passou a mão num lápis, fez uns cálculos e chegou a esta conclusão: Tinha um seguro para a velhice que desde moço vinha pagando: este seguro poderia ser recebido já, com um desconto razoável; seu emprego ele poderia vendê-lo a qualquer candidato, o que lhe daria uns bons cobres. Ainda de lápis na mão calculou quanto gastaria por ano na ilha e quantos anos ainda poderia viver. Em números: teria no bolso mil contos, gastaria 100 contos por ano e, no máximo viveria mais uns 10 anos. Seu médico já não lhe repetira muitas vezes que a sua vida estava por um fio? Não fora mesmo por motivo de saúde que viera passar as suas férias ao cálido sol do Mediterrâneo? Decidiu-se. Voltou à Inglaterra, recebeu o seguro, vendeu o emprego, veio para a ilha, contratou uma pensão e foi viver... O novelista o conheceu na ilha quinze anos depois. Vivia ele das esmolas que recebia em troca de servicinhos que prestava aqui e acolá. Não morrera no prazo marcado. O clima sarara-o e a nova vida lhe dera razões de sobra para viver. Suicidar-se não quis ou não teve coragem. Agora, maltrapilho, sujo, barbudo, escondia-se à aproximação de pessoas estranhas ou fugia abertamente se fossem elas da Inglaterra. Não queria que conhecessem o seu drama, a história do seu fracasso.
Ouvi na minha infância um orador contar que existia uma ave, uma espécie de águia, talvez, que faz o ninho assim: escolhe galhos cheios de espinhos e os dispõe na forma costumeira que têm os ninhos. A seguir forra-o por dentro com algodão, paina ou penas macias. Quando os filhotes emplumam e chega o momento de aprender a voar, só há um meio de arrancá-los do ninho onde querem ficar perenemente no " dolce far niente": é subtrair-lhes o gostoso colchão e deixá-los a se espetarem nos espinhos. Aí eles não têm outro recurso: arrancam-se... E aos trambolhões e aos sustos vão perdendo o medo da amplidão e em pouco tempo passam a viver perigosamente uma vida de liberdade e segurança. São os senhores do espaço, os vencedores das procelas, os que voam mais alto.
Você quer saber mesmo, meu rapaz, onde é a terra dos Lotófagos? Pode ser a sua casa, o seu distrito, o seu bairro, a sua cidade. Quer saber o nome do comedor de lódão do novelista? Pode ser o seu ou o do seu colega, o de um seu amigo.
Embalado pelas facilidades da casa do papai, tolhido pelos doces laços do afeto da família, preso aos encantos de uma jovem bonita que lhe quer bem, o moço sente a enorme tentação de desistir da luta antes mesmo de começá-la. Na idade propícia para a conquista de conhecimentos e de meios que o capacitem para enfrentar triunfalmente os embates da vida, ele sente a inebriante tentação de ficar indefinidamente devorando uma a uma as dulçorosas flores de lótus que o ambiente doméstico e citadino lhe oferece em bandeja de prata. E o seu patrimônio mais precioso, esse que não poderá jamais recuperar por mais dinheiro que venha a ganhar, estará perdido para sempre: o tempo que se foi.
Enervado pela monotonia, pela rotina de todo dia, pela mesmice das semanas e dos meses, pela repetição, das coisas e das caras, o moço degenera fatalmente. No jogo, na bebida, na frequência a lugares onde não mandaria um irmão mais novo ou um filho se o tivesse, procura interromper o círculo vicioso que o exaspera e esmaga.
A um jovem amigo que me procurou nesta semana perguntando-me: - "E agora, professor, que é que eu faço?" - respondi-lhe usando o verbo que está na moda atualmente: Arranque-se! Gostei do verbo pela fidelidade que existe na ideia formada em nossa mente: é preciso realmente que o moço "se arranque". Sente-se aqui a ideia de força, força compulsória que desprende do solo, com as raízes, a planta que se quer levar para um sítio melhor para ela e para todos que lhe querem bem. Seus estudos aqui terminaram? Não pense que já ganhou a parada. Ela apenas começou. Esses certificados, esses diplomas, são apenas armas decisivas para a vitória daqueles que estão aptos moral e espiritualmente para a luta, mas podem ser apenas trambolhos que dificultam a debandada daqueles que esperam tão somente o brado de "salve-se quem puder".
Arranque-se! Vá continuar os seus estudos numa cidade maior, vá aprender a dar às coisas o exato valor que elas merecem, vá temperar o seu caráter na forja do trabalho e da necessidade. E volte apenas como um guerreiro que momentaneamente deixa a batalha para um repouso revigorador, ou então venha triunfante contribuir com a sua capacidade plenamente desenvolvida para o progresso, o bem estar de sua terra. Se for preciso fazer sangrar o coração nos espinheiros da saudade e da solidão, faça-o agora quando a cicatrização é mais fácil. Da solitude e da mudez da crisálida que vegeta no recanto do jardim, decorrido o prazo de sacrifício que a si própria fixou uma feia lagarta, surgirá a flor alada de uma borboleta multicor. Arranque-se!
Baseado neste episódio, o renomado novelista inglês Somerset Maugham produziu um dos seus melhores contos intitulado "O comedor de lódão". É a estória de um funcionário inglês que vai passar umas férias na ilha de Capri, perto de Nápolis e historicamente famosa pelas suas belezas naturais e por ter ali vivido uma vida depravadíssima o imperador Tibério. Diz Axel Munthe em seu "Livro de San Michele" que até hoje, quando acontece algo doloroso ou estranho na ilha, os moradores garantem que aquilo é "obra de Tibério" - "coisa" do libidinoso imperador. O inglês, já cinquentão, ficou fascinado, embasbacado, fanático pela ilha. Tratou de estudar um meio de ficar morando em Capri. Passou a mão num lápis, fez uns cálculos e chegou a esta conclusão: Tinha um seguro para a velhice que desde moço vinha pagando: este seguro poderia ser recebido já, com um desconto razoável; seu emprego ele poderia vendê-lo a qualquer candidato, o que lhe daria uns bons cobres. Ainda de lápis na mão calculou quanto gastaria por ano na ilha e quantos anos ainda poderia viver. Em números: teria no bolso mil contos, gastaria 100 contos por ano e, no máximo viveria mais uns 10 anos. Seu médico já não lhe repetira muitas vezes que a sua vida estava por um fio? Não fora mesmo por motivo de saúde que viera passar as suas férias ao cálido sol do Mediterrâneo? Decidiu-se. Voltou à Inglaterra, recebeu o seguro, vendeu o emprego, veio para a ilha, contratou uma pensão e foi viver... O novelista o conheceu na ilha quinze anos depois. Vivia ele das esmolas que recebia em troca de servicinhos que prestava aqui e acolá. Não morrera no prazo marcado. O clima sarara-o e a nova vida lhe dera razões de sobra para viver. Suicidar-se não quis ou não teve coragem. Agora, maltrapilho, sujo, barbudo, escondia-se à aproximação de pessoas estranhas ou fugia abertamente se fossem elas da Inglaterra. Não queria que conhecessem o seu drama, a história do seu fracasso.
Ouvi na minha infância um orador contar que existia uma ave, uma espécie de águia, talvez, que faz o ninho assim: escolhe galhos cheios de espinhos e os dispõe na forma costumeira que têm os ninhos. A seguir forra-o por dentro com algodão, paina ou penas macias. Quando os filhotes emplumam e chega o momento de aprender a voar, só há um meio de arrancá-los do ninho onde querem ficar perenemente no " dolce far niente": é subtrair-lhes o gostoso colchão e deixá-los a se espetarem nos espinhos. Aí eles não têm outro recurso: arrancam-se... E aos trambolhões e aos sustos vão perdendo o medo da amplidão e em pouco tempo passam a viver perigosamente uma vida de liberdade e segurança. São os senhores do espaço, os vencedores das procelas, os que voam mais alto.
Você quer saber mesmo, meu rapaz, onde é a terra dos Lotófagos? Pode ser a sua casa, o seu distrito, o seu bairro, a sua cidade. Quer saber o nome do comedor de lódão do novelista? Pode ser o seu ou o do seu colega, o de um seu amigo.
Embalado pelas facilidades da casa do papai, tolhido pelos doces laços do afeto da família, preso aos encantos de uma jovem bonita que lhe quer bem, o moço sente a enorme tentação de desistir da luta antes mesmo de começá-la. Na idade propícia para a conquista de conhecimentos e de meios que o capacitem para enfrentar triunfalmente os embates da vida, ele sente a inebriante tentação de ficar indefinidamente devorando uma a uma as dulçorosas flores de lótus que o ambiente doméstico e citadino lhe oferece em bandeja de prata. E o seu patrimônio mais precioso, esse que não poderá jamais recuperar por mais dinheiro que venha a ganhar, estará perdido para sempre: o tempo que se foi.
Enervado pela monotonia, pela rotina de todo dia, pela mesmice das semanas e dos meses, pela repetição, das coisas e das caras, o moço degenera fatalmente. No jogo, na bebida, na frequência a lugares onde não mandaria um irmão mais novo ou um filho se o tivesse, procura interromper o círculo vicioso que o exaspera e esmaga.
A um jovem amigo que me procurou nesta semana perguntando-me: - "E agora, professor, que é que eu faço?" - respondi-lhe usando o verbo que está na moda atualmente: Arranque-se! Gostei do verbo pela fidelidade que existe na ideia formada em nossa mente: é preciso realmente que o moço "se arranque". Sente-se aqui a ideia de força, força compulsória que desprende do solo, com as raízes, a planta que se quer levar para um sítio melhor para ela e para todos que lhe querem bem. Seus estudos aqui terminaram? Não pense que já ganhou a parada. Ela apenas começou. Esses certificados, esses diplomas, são apenas armas decisivas para a vitória daqueles que estão aptos moral e espiritualmente para a luta, mas podem ser apenas trambolhos que dificultam a debandada daqueles que esperam tão somente o brado de "salve-se quem puder".
Arranque-se! Vá continuar os seus estudos numa cidade maior, vá aprender a dar às coisas o exato valor que elas merecem, vá temperar o seu caráter na forja do trabalho e da necessidade. E volte apenas como um guerreiro que momentaneamente deixa a batalha para um repouso revigorador, ou então venha triunfante contribuir com a sua capacidade plenamente desenvolvida para o progresso, o bem estar de sua terra. Se for preciso fazer sangrar o coração nos espinheiros da saudade e da solidão, faça-o agora quando a cicatrização é mais fácil. Da solitude e da mudez da crisálida que vegeta no recanto do jardim, decorrido o prazo de sacrifício que a si própria fixou uma feia lagarta, surgirá a flor alada de uma borboleta multicor. Arranque-se!
Crônica escrita em 1961 e publicada no livro Cinzeiros e Jequitibás, de 1985.
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