Conheci em 1933 o México de 1865 e desde então não o larguei mais. Tinha eu 12 anos incompletos e me meti num concurso escolar de declamação. Meu pai era doido por Castro Alves e assim, os três filhos que concorreram, foram de Castro Alves. A mim coube "O Século", belíssimo poema onde o poeta faz uma análise do século XIX, e de como as coisas iam mal para os povos e as nações, restando aos corações a esperança e a confiança na geração que chegava. Na trágica relação do poeta, a referência ao México, então sob o domínio de Napoleão III que impusera aos mexicanos, pela força das armas, um príncipe austríaco, Maximiliano I, como Imperador: "Aqui o México ardente - Vasto filho independente da liberdade e do sol - Jaz por terra... e lá soluça Juarez, que se debruça e diz-lhe: "Espere o arrebol". Mais uma vez o poeta era também profeta: estes versos de 1865, anteviam 1867, quando os mexicanos, vitoriosos, restabeleceram a sua independência e afirmaram a sua soberania, não poupando Maximiliano, que foi fuzilado. E assim voltava ao poder a figura carismática daquele homem estranho que trazia no sangue e no semblante a fusão étnica do conquistador e do conquistado, Benito Juarez, o advogado de nome espanhol e de alma asteca.
É ponto pacífico no mundo físico a atração dos contrários e até Roberto Carlos já exaltou, contando, a ideal junção do côncavo com o convexo. Acredito que só assim se explica a mútua afeição de mexicanos e brasileiros, afeição espontânea e natural que brota até no coração de um adolescente quando ouve falar na terra da liberdade e do sol que está sofrendo e que precisa se agarrar à abstrata certeza de que o clarão que avermelha o nascente não é a sua terra em chamas, sim o arrebol que anuncia para breve o nascer do sol.
Nossas diferenças vão desde o geológico até ao temperamental. O solo brasileiro é dos mais velhos do planeta, classificado na Era Primitiva, a dos maciços antigos e bacias sedimentares: não tem vulcão nem terremoto. Já o México faz parte do Terciário e do Quaternário, tem apenas 70 milhões de anos - nós temos mais de um bilhão - e em seu solo ainda nascem vulcões. Pelo menos em nossos dias nasceu um; isto em fevereiro de 1943, no sul do país: a terra tremeu, o solo de repente se fendeu e começou a vomitar fumo, lava e pedras: nascia uma planície, o Paricutin, hoje com 400 metros de altura.
Enquanto o brasileiro consagra o "mais ou menos" como a doutrina do quotidiano e o político mineiro se celebriza com a genial afirmativa: - "O meu partido não é contra nem a favor, muito antes pelo contrário, acima de tudo", o mexicano é um passionário e por isto um imprevisível. Comentando o nascimento do Paricutin num roçado qualquer, Érico Veríssimo sentenciou: - "A alma mexicana pode comparar-se a uma lavoura de milho de aparência tranqüila. Mas cuidado, forasteiro! A qualquer momento a roça pode explodir num vulcão sem aviso prévio. E toda a contida e ardente lava do subsolo brotará com fúria, mudando por completo, em poucos minutos, a paisagem em torno".
Eis o México, atormentado e aflito, não podendo e nem querendo esquecer as suas raízes nativas, insistindo em ser "México", a terra dos méxicas, e não a Nova Espanha como quer Hernan Cortez; México de Montezuma e Guatemozim, de estirpe real, que sucumbem com sua pátria. Guatemozim ou Guatemoc, suporta sem gemido que os espanhóis lhe queimem com ferro em brasa as solas de seus pés e quando percebe que o seu companheiro de tortura fraqueja, adverte: - "Você pensa, por acaso, que eu estou me banhando em rosas?". México incompreendido e sofrido, espoliado pelos Estados Unidos que o desfalcam do Arizona e do Novo México, contando para tanto com a cumplicidade do líder que os mexicanos adoravam, General Antônio Lopes de Santa Ana. México de Porfírio Dias, honesto mas incapaz, que sente o problema de sua terra e o define magistralmente:
"Pobre México, tan lejos de Dios, y tan cerca de Estados Unidos".
México de Pancho Vila e Zapata, ferozes, sanguinários, mas patriotas totais, dilacerando o coração no amor cego à pátria, expresso seguidamente nas matanças e depredações.
Eis México dos meus amores, dos soluços de Augustin Lara, Quasimodo apaixonado por Maria Félix, que mulher! de Alberto Dominguez, decantando sua tristeza ante a "Perfídia" da mulher amada. México de "Dos Almas", "Besame Mucho", "La Barca", "Quando tu me quieras", e tantos boleros que levara a paixão mexicana a todas as partes do mundo. México, terra da liberdade, que aceita sem questionar o perseguido seja quem for e venha de onde vier. México de Guadalajara, cidade querida dos brasileiros: ali em 1970, os mexicanos adotaram oficialmente a seleção brasileira como a sua seleção. E quando a hora do Triunfo chegou, as cidades mexicanas celebraram como se brasileiras fossem, a conquista da Copa do Mundo.
México de meus amores, sofro contigo a tua dor, choro ao teu lado os teus mortos, e vivo contigo a vigília em torno às ruínas à espera dos sobreviventes. Por que foste construir tuas casas, teus arranha-céus, em cima dos lagos astecas que aterraste? Por que não cuidaste dos vulcões e dos terremotos, teus companheiros de todos os dias? Por quê?
E me olhas com teus olhos marejados, a tristeza impregnando todo o teu ser e me respondes docemente, todo envolto naquele fatalismo que permeia a tua história desde a fatídica chegada do homem branco até o momento em que contemplas estarrecido as ruínas de tua cidade: "Quién Sabe"?
Crônica escrita em 1985 e publicada no livro Sem Pesadelos, de 1990.