MINHA SENHORA:
Neste preciso instante em que escrevo estas duas palavras iniciais, vem-me à lembrança a estória - não sei se verídica ou não - do homem que sonhou com o Céu. Foi o caso que ele se deitou à hora de sempre, com as preocupações de sempre, amaldiçoando a sua sorte, invejoso da boa vida alheia, queixoso até à medula e... de repente ei-lo em um vasto salão no Céu. Enconstadas à paredes, centenas, milhares de cruzes de todos os tamanhos e feitios: grossas, finas, baixas, altas, de madeira, de pedra, de ferro, e até de prata e de ouro. O anjo que o recebera explicou-lhe: - "O sr. com certeza sabe que todas as criaturas sem exceção, tem uma cruz para levar. Ninguém está dispensado, ninguém. No seu caso, estamos dispostos a fazer-lhe uma concessão: o sr. mesmo escolhe aquela que mais lhe agrade". E com um gesto largo dos braços mostrou-lhe as cruzes à sua escolha. Ficou contente o nosso homem, e dispondo de tempo, passou à seleção.
Achou a primeira muito pesada; a segunda incômoda, a terceira sem proporção; a quarta, a quinta, a sexta... nenhuma servia. Olhava, pegava, suspendia, punha num ombro, simulava uma caminhada e desistia. E assim foi salão à fora: experimentando e largando. As bonitas eram pesadas e desconfortáveis; as mais maneiras eram muito feias. As roliças escorregavam, as de quinas incomodavam. De repente aconteceu: ele se agradou total de uma delas. Achou-a jeitosa, pesando pouco, bem dividida, altura certa, um amor de cruz. Chamou o anjo e anunciou-lhe a decisão: encontrara a cruz ideal. O anjo então pediu: - "Considerando que todas as cruzes trazem gravada na base o nome do seu portador, gostaria que o sr. me informasse de quem é esta". Depois de rápida procura o olhar do nosso homem caiu sobre a inscrição antes despercebida. Leu-a. E foi vexado e desenxabido que olhou novamente o anjo: O nome que estava lá, com todas as letras bem nítidas, era o seu. Nunca lhe passara pela cabeça a ideia de que os vizinhos, os amigos e os parentes teriam cruzes piores do que a sua para carregar.
Não pretendo de modo algum subestimar a cruz que a sra. carrega, assim como não vejo porque lhe dar o direito de superestimar o seu esforço em carregá-la. Gostaria, isto sim, que nós ambos considerássemos por alguns momentos, objetivamente e com sinceridade o seu problema.
A sra. queixa dos trabalhos de casa, dos filhos que não lhe dão um instante de sossego, da mínima ou da nenhuma atenção do marido. Sua vida diária é semelhante aquela que, como condenação eterna, foi dada a Sísifo, personagem da mitologia grega: empurrar morro acima uma pedra enorme, só para vê-la rolar até o ponto de partida assim que o cume do monte era alcançado. Não é isto? E tem mais, há o problema da filha mais velha, com quem a sra. positivamente não consegue entender-se. E o fato de os de fora da casa acharem que ela é uma excelente criatura só serve para exasperar ainda mais a senhora. E como a sra. está sempre com a razão, pois é mais velha, tem experiência e responsabilidade, os de fora são cegos, ou se fazem de maus ou a filha é uma dissimulada. Não é assim?
Bem aventurados os pais, especialmente as mães cujos filhos são peraltas, irrequietos, travessos, que sobem nas árvores, brincam na terra, sujam-se todos, promovem as suas briguinhas, choram porque querem ir a algum lugar a choram porque foram. Bem aventuradas as mães cujos filhos mancham o assoalho encerado com os pés sujos de barro, que põem os pés no assento da cadeira, que mexem no guarda-comida no intervalo das refeições, que demoram demais no banho, que de vez em quando quebram um copo ou um prato, que soltam seu palavrãozinho um vez por outra. Bem aventurada a mãe cuja filha adolescente se desentende com ela por causa do vestido, de comida, de namoro, de amizades etc. etc. Esta mãe é uma abençoada: os seus filhos são normais e estão sendo criados de maneira normal.
Pior, infinitamente pior seria se esses meninos fossem apáticos, inertes, simples bonecos de engonço, sem vontade, sem energia, sem interesse de ver de perto e examinar esta coisa marvilhosa que é a vida e para a qual estão justamente agora sintonizando com entusiasmo os seus sentidos.
Existe um permanente estado de beligerância entre a sra. e a sua filha mais velha? E daí? Quantos anos separam os seus 15 anos dos 15 que ela tem agora? Vamos supor que os seus quinze foram comemorados em 1954. Naquele ano se alguém dissesse que a Copa do Mundo de 1970 no México seria vista ao vivo aqui em Paraguaçu, ou que o homem iria passear na Lua sob nossos olhos assonbrados, esse alguém provocaria riso ou dó: era piadista ou doido. E a sra. há de querer que uma pessoa de 15 anos hoje possa afinar totalmente com outra que deixou os seus 15 presos em um marco distante 17 anos para trás? Se isto suceder, das duas uma: ou há aqui um caso de velhice precoce, o que será de se lamentar profundamente, ou então a mais velha foi tomada de uma juvenilidde imprópria e por isso ridícula.
O que importa, minha senhora, não é afligir-se por causa da trombada, e sim ter o cuidado de não permitir que danos irreparáveis venham a acontecer na personalidade em formação em consequência dos choques. E isto é tarefa sua, inadiável e intransferível. Brigue menos com sua filha e demonstre a toda hora o quanto a sra. a ama. É bom que ela saiba que aquele doce de mamão que a família está comendo foi feito porque ela, a filha mais velha, gosta de doce de mamão.
E quanto ao marido, ele lhe é infiel? Não. É jogador? Não. É um bêbado? Não. Esforça-se por lhe dar o melhor? Sim. Trata-a e aos filhos com carinho e respeito? Sim. Que a sra. quer mais?
Devo informá-la de que o Prícipe de Gales mais velho já está casado, o mais jovem ainda está muito moço, e um príncipe igual a esse seu, quem o tem cuida bem ele: dê-lhe paz e alegria em casa para que ele reanimado e fortalecido possa começar cada manhã como se estivesse ainda em lua de mel.
Neste preciso instante em que escrevo estas duas palavras iniciais, vem-me à lembrança a estória - não sei se verídica ou não - do homem que sonhou com o Céu. Foi o caso que ele se deitou à hora de sempre, com as preocupações de sempre, amaldiçoando a sua sorte, invejoso da boa vida alheia, queixoso até à medula e... de repente ei-lo em um vasto salão no Céu. Enconstadas à paredes, centenas, milhares de cruzes de todos os tamanhos e feitios: grossas, finas, baixas, altas, de madeira, de pedra, de ferro, e até de prata e de ouro. O anjo que o recebera explicou-lhe: - "O sr. com certeza sabe que todas as criaturas sem exceção, tem uma cruz para levar. Ninguém está dispensado, ninguém. No seu caso, estamos dispostos a fazer-lhe uma concessão: o sr. mesmo escolhe aquela que mais lhe agrade". E com um gesto largo dos braços mostrou-lhe as cruzes à sua escolha. Ficou contente o nosso homem, e dispondo de tempo, passou à seleção.
Achou a primeira muito pesada; a segunda incômoda, a terceira sem proporção; a quarta, a quinta, a sexta... nenhuma servia. Olhava, pegava, suspendia, punha num ombro, simulava uma caminhada e desistia. E assim foi salão à fora: experimentando e largando. As bonitas eram pesadas e desconfortáveis; as mais maneiras eram muito feias. As roliças escorregavam, as de quinas incomodavam. De repente aconteceu: ele se agradou total de uma delas. Achou-a jeitosa, pesando pouco, bem dividida, altura certa, um amor de cruz. Chamou o anjo e anunciou-lhe a decisão: encontrara a cruz ideal. O anjo então pediu: - "Considerando que todas as cruzes trazem gravada na base o nome do seu portador, gostaria que o sr. me informasse de quem é esta". Depois de rápida procura o olhar do nosso homem caiu sobre a inscrição antes despercebida. Leu-a. E foi vexado e desenxabido que olhou novamente o anjo: O nome que estava lá, com todas as letras bem nítidas, era o seu. Nunca lhe passara pela cabeça a ideia de que os vizinhos, os amigos e os parentes teriam cruzes piores do que a sua para carregar.
Não pretendo de modo algum subestimar a cruz que a sra. carrega, assim como não vejo porque lhe dar o direito de superestimar o seu esforço em carregá-la. Gostaria, isto sim, que nós ambos considerássemos por alguns momentos, objetivamente e com sinceridade o seu problema.
A sra. queixa dos trabalhos de casa, dos filhos que não lhe dão um instante de sossego, da mínima ou da nenhuma atenção do marido. Sua vida diária é semelhante aquela que, como condenação eterna, foi dada a Sísifo, personagem da mitologia grega: empurrar morro acima uma pedra enorme, só para vê-la rolar até o ponto de partida assim que o cume do monte era alcançado. Não é isto? E tem mais, há o problema da filha mais velha, com quem a sra. positivamente não consegue entender-se. E o fato de os de fora da casa acharem que ela é uma excelente criatura só serve para exasperar ainda mais a senhora. E como a sra. está sempre com a razão, pois é mais velha, tem experiência e responsabilidade, os de fora são cegos, ou se fazem de maus ou a filha é uma dissimulada. Não é assim?
Bem aventurados os pais, especialmente as mães cujos filhos são peraltas, irrequietos, travessos, que sobem nas árvores, brincam na terra, sujam-se todos, promovem as suas briguinhas, choram porque querem ir a algum lugar a choram porque foram. Bem aventuradas as mães cujos filhos mancham o assoalho encerado com os pés sujos de barro, que põem os pés no assento da cadeira, que mexem no guarda-comida no intervalo das refeições, que demoram demais no banho, que de vez em quando quebram um copo ou um prato, que soltam seu palavrãozinho um vez por outra. Bem aventurada a mãe cuja filha adolescente se desentende com ela por causa do vestido, de comida, de namoro, de amizades etc. etc. Esta mãe é uma abençoada: os seus filhos são normais e estão sendo criados de maneira normal.
Pior, infinitamente pior seria se esses meninos fossem apáticos, inertes, simples bonecos de engonço, sem vontade, sem energia, sem interesse de ver de perto e examinar esta coisa marvilhosa que é a vida e para a qual estão justamente agora sintonizando com entusiasmo os seus sentidos.
Existe um permanente estado de beligerância entre a sra. e a sua filha mais velha? E daí? Quantos anos separam os seus 15 anos dos 15 que ela tem agora? Vamos supor que os seus quinze foram comemorados em 1954. Naquele ano se alguém dissesse que a Copa do Mundo de 1970 no México seria vista ao vivo aqui em Paraguaçu, ou que o homem iria passear na Lua sob nossos olhos assonbrados, esse alguém provocaria riso ou dó: era piadista ou doido. E a sra. há de querer que uma pessoa de 15 anos hoje possa afinar totalmente com outra que deixou os seus 15 presos em um marco distante 17 anos para trás? Se isto suceder, das duas uma: ou há aqui um caso de velhice precoce, o que será de se lamentar profundamente, ou então a mais velha foi tomada de uma juvenilidde imprópria e por isso ridícula.
O que importa, minha senhora, não é afligir-se por causa da trombada, e sim ter o cuidado de não permitir que danos irreparáveis venham a acontecer na personalidade em formação em consequência dos choques. E isto é tarefa sua, inadiável e intransferível. Brigue menos com sua filha e demonstre a toda hora o quanto a sra. a ama. É bom que ela saiba que aquele doce de mamão que a família está comendo foi feito porque ela, a filha mais velha, gosta de doce de mamão.
E quanto ao marido, ele lhe é infiel? Não. É jogador? Não. É um bêbado? Não. Esforça-se por lhe dar o melhor? Sim. Trata-a e aos filhos com carinho e respeito? Sim. Que a sra. quer mais?
Devo informá-la de que o Prícipe de Gales mais velho já está casado, o mais jovem ainda está muito moço, e um príncipe igual a esse seu, quem o tem cuida bem ele: dê-lhe paz e alegria em casa para que ele reanimado e fortalecido possa começar cada manhã como se estivesse ainda em lua de mel.
Crônica escrita em 1971 e publicada no livro Cinzeiros e Jequitibás, de 1985

Nenhum comentário:
Postar um comentário