terça-feira, 13 de abril de 2010

Assunto sério

Sorri ontem ao ler uma breve notícia publicada na seção "Assim é..." do "Diário de São Paulo". O sorisso no caso é importante, pois a notícia proíbe justamente sorrir, não ao leitor, mas a certos funcionários municipais de Los Angeles.
O prefeito dessa importante cidade da Califórnia baixou uma portaria recomendando aos funcionários que trabalham na repartição municipal encarregada de receber o pagamento de impostos atrasado e portanto com multa, que se abstenham de sorrir no momento em que o contribuinte ali comparece para efetuar o dito pagamento.
Eis aí uma providência de fina sabedoria e que bem demonstra estar a Prefeitura de Los Angeles entregue a um grande conhecedor da psicologia humana. Sei que não estarão de acordo comigo os diligentes e joviais recebedores de impostos daquela cidade, já que agora terão aqueles publicanos de trabalhar como se aquilo fosse uma agência funerária. Mas o público pagante, a grande massa que, com o seu dinheirinho, põe em funcionamento e mantém lubrificada e abastecida a máquina administrativa municipal, este não deixará de louvar e até agradecer a inusitada portaria do Executivo. Sim, porque se há um momento em que o sujeito se sente como em um enterro, é aquele em que ele, forçado pela lei, vai levar uma parte do fruto do seu trabalho para a fogueira pública. Sua disposição psicológica é a mesma daquelas mulheres fenícias que, segundo os historiadores clássicos, eram obrigadas a levar seus filhinhos queridos para serem queimados nos braços do deus Moloque...
Foi isto o que enxergou o salomônico prefeito de Los Angeles. O sorisso numa hora desta seria um despropósito, uma provocação. O cidadão deveria ser recebido, isto sim, por funcionários de caras patibulares, todos com fitas pretas na lapela, ou como braçadeiras, que se apressariam a estender a sua destra condolências ao pagantes enquanto uma orquestra invisível tocava em surdina uma página das bem mórbidas de Schumann. E assim, diante de tão comovedora prova de solidariedade humana, a vítima perderia, da ira e da revolta íntima com que ali penetrou, o suficiente para sair consolado e achando simpáticos e agradáveis os recebedores municipais e ainda penalizado pela sua sorte infeliz, ocupados em mister tão ingrato. Infeliz porém até agora tem sido o contribuinte que, depois de não encontrar por onde anda ou onde mora alguma coisa que ateste o bom emprego do seu dinheiro, ainda é recebido, no momento de holocausto, com o mais prazenteiro dos sorissos que o funcionário pode exibir, como se aquilo fosse um "pic-nic" ou a bilheteira de um cinema que exibe no momento um "film" de Danny Kay.
Esta história de sorriso fora de hora é muito séria. As mulheres, melhor do que ninguém, sabem disto. A prova está na habilidade com que elas são capazes de despertar raivas profundas nas outras mulheres ou extensos sentimentos de humilhação aos homens, com um simples sorisso, simples porém especialíssimo...
E ainda sobre a tremenda eloquência do sorriso há também aquele história contada pelo recentemente falecido escritor norte-americano Dale Carnegie: Durante a grande guerra, houve um grave tumulto em uma fábrica de aço, tumulto provocado por um operário germanófilo que terminou sendo atirado pelos seus colegas, que torciam pelos aliados, em um rio que passava próximo. Pescado o homem, foi ele levado à presença do diretor da fábrica e este interrogou-o sobre o ocorrido. O acusado contou então a sua história: os seus colegas de serviço começaram a falar sobre a guerra, e, a "una voce", afirmavam categoricamente que os aliados iam ganhá-la, aduzindo argumentos sobre argumentos. "E o senhor - perguntou-lhe o patrão - o que foi que disse, o que é que o sr. respondeu para que eles ficassem tão zangados?" - "Eu não disse nada não, sr. diretor, apenas sorri..."
Crônica escrita em 1955 e publicada no livro Cinzeiros e Jequitibás, de 1985

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